segunda-feira, 5 de maio de 2014

Tangerina

Deixo um pouco fora da geladeira para não doer os dentes. A seguir, meu ritual: bem no meio dela, na parte de cima da casca, enfio meu dedão e parto-a em duas partes. Primeiro aprecio o cheiro cítrico mais agradável do que qualquer outra fruta do mesmo tipo. Gostaria de cheirar à tangerina sempre. Retiro uma goma (é assim que se chama? Não sei porque nunca precisei falar ou escrever essa palavra.) Retiro também algumas pelinhas antes de mordê-la. Quando finalmente mordo, mordo apenas até um pouco antes da metade, a ponto de abrir onde ficam as sementes, mas sem mastigar nenhuma delas. O quanto adoro tangerina é diretamente proporcional ao meu rancor contra suas sementes. Cuspo as sementes numa das mãos que fica em forma de uma concha para recebê-las, e logo em seguida deposito as sementes em uma das partes da casca. Tudo que não gostaria de aproveitar descarto antes de fatalmente saborear. Depois repito o processo em cada uma das "gomas". Todo esse ritual faz com que a tangerina seja diferente das outras frutas. Eu preciso de tempo ocioso. Eu reservo um momento só para ela. Não é sempre, though. Não é sempre que tenho tempo para esse ritual. Nem todas as vezes que tenho tempo, tenho vontade. Mas quando ela chega, eu tiro esse tempo para não pensar em nada, além daquilo. Acredito que todos tenham um momento de meditação de tempos em tempos. Alguma coisa que esvazia o caos da mente. Acredito também que cada um tenha uma tangerina diferente. Acredito que outras coisas da minha vida sejam tangerinas. São essas preciosas coisas/pessoas-tangerina que me fazem manter a sanidade. Qual é a sua?