quarta-feira, 28 de novembro de 2012

O fim do tempo.

Pouca coisa muda dia após dia. No entanto, no final, está absolutamente tudo mudado. Cada ano é uma evolução. Não chamo evolução de melhoria; não me compreenda mal. Chamo de evolução toda e qualquer mutação. Para melhor ou pior. Os pensamentos mudam, as percepções, as decepções, as vontades, as faltas de vontade. Algumas pessoas já não fazem parte do grande cenário de nossas vidas. E você percebe que outras nunca vão deixar de fazer... Eu gosto de exaltar quem/ o que permaneceu. Os passageiros são essenciais, mas devemos entender que eles precisam passar, simplesmente. Essa sensação de final de ano me traz a sensação de final de um ciclo, e início de um ciclo novo. Mas, no final das contas, essa coisa toda nem existe. Os momentos são atemporais. Os dias, os meses, os anos, os séculos... Esses são só números. Não existe tempo. É sempre o mesmo dia. Acordamos no mesmo dia, todo dia. Essa coisa de tempo acontece apenas dentro de nós, e está relacionado com as mutações que sofremos. As evoluções. Estamos sempre abrindo os olhos no mesmo dia, com mais uma chance de fazer aquilo que não fizemos antes. Ou de fazer novamente aquilo que foi muito bem feito. Algumas pessoas fazem melhor a cada dia. Outras se perdem no caminho. Isso de fato não importa. O importante é perceber que tempo não existe. O nosso corpo existe, e ele vai ficando cansado de tantas chances. Daí, ele, o nosso corpo, ou qualquer outro corpo, começa a refletir o cansaço, nos dando a falsa sensação de que estamos envelhecendo. Eu, particularmente, aproveito muitas dessas chances dormindo. São sempre nesses dias/nessas chances que menos me arrependo do que fiz (ou na verdade não me arrependo nada). Mas não dá pra ficar parado. Temos de fingir que essa coisa toda de viver é muito importante. Aí, com todo esse fingimento dessa coisa de tempo, números, importância, ser ou não ser eis a questão, fingimos também que com o fim do ano, um ciclo se fecha. Comemoramos e passamos para as próximas realizações. É até saudável se deixar enganar, já que todo mundo decidiu ser enganado junto. Ser muito realista seria o primeiro passo à loucura (o que nem sempre me soa mau). Mas é confortante saber que o ano está acabando. Traz aquela ansiedade combustível que nos faz não querer somente sobreviver às chances, mas de fato fazer alguma coisa delas. Fazer por nós mesmos, por outros, por nada... Mas por fazermos alguma coisa simplesmente porque podemos, temos esse direito, e enquanto ainda há "tempo". 

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Little darlin`

Who would say the sun would shine again?
I certainly wouldn`t.
I would say my days would always be cloudy
But you make my days sunny and bright
Not because I think about you
Not because I dream about you
Not because I expect something from you
But because you are there.
And I feel safe.
And I feel myself.
And I can be myself
And, also, because you are a part of me.
Because, in the end, I`ll always have you around.
" Here comes the sun,
It`s all right!"

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Stream of consciousness.

"When I’m waiting for the bus, making the queue in the bank or just having a walk in the park I feel my thoughts’ flow. They just don’t follow any pattern. I think about the weather, about dogs, God, making love in a church, sea, peeing, fight club and many, many other things not connected at all with each other. If you come and ask me about my thoughts my answer will be: “I m not thinking about anything”. Sometimes I can’t even tell myself what I was thinking before I started on my feet to answer the phone that rang suddenly. This long illogical stream of thoughts is what is called stream of consciousness." 


Source: http://www.daftblogger.com/james-joyce-and-the-stream-of-consciousness-technique/

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

O fracasso do fim do mundo.

Lembro-me bem deste ano. 2012. Todos especulavam e faziam até piadas com essa coisa toda do mundo acabar. Algumas pessoas nos Estados Unidos guardavam mantimentos, faziam casas subterrâneas e tudo mais. Aqui no Brasil, é claro, as pessoas postavam piadas nas redes sociais e faziam programas de televisão cômicos em relação a isso. Essa é uma característica do país: piada. Eu nunca acreditei que o mundo fosse acabar assim, sem mais nem menos. Sempre achei muito otimismo das pessoas acharem que tudo acabaria e que eles não pagariam em vida pelos estragos que vinham fazendo. Alguns diziam que a punição viria pós-morte. Mas não acreditava nessa coisa de limbo, julgamento, etc. Bom, vou contar para vocês a história do fracasso do fim do mundo. Estou contando anos após, então acho que posso ter uma visão mais realista da coisa hoje em dia. Foi mais ou menos assim:
Era uma vez, um povo ... não. Não posso começar a história com "era uma vez". Ainda é "a vez". Nada mudou muito. Mas, na época, muitos estavam especulando o fim do mundo; mais uma vez. Era basicamente por causa do calendário Maia que terminava naquele ano. Lembro até que vi algumas fotos em redes sociais que brincavam dizendo que os Maias haviam ficado sem lugar para escrever o calendário e que diziam "nossa, o povo em 2012 vai surtar quando ver isso". É...alguns surtaram. Mas a maioria só estava fazendo piada mesmo. Piadas do tipo "a única coisa que me arrependerei de ter feito se o mundo acabar é ter estudado para nada." É! As pessoas achavam estudar perda de tempo. Basicamente, esse pensamento já nos alertava que o fim estava próximo. Isso sim me assustava. Ah! Houve outro indício de que o fim estava próximo! As eleições. Um prefeito de merda havia sido reeleito e isso nos levava a crer que tudo estava por um triz. Mas vamos combinar, a estupidez humana sempre reinou, e nem por isso o mundo havia acabado. E dessa vez não foi diferente. Foi com a ignorância de todo um povo que fez com que o fim do mundo fosse um fracasso. Foram pessoas que decidiram se calar, pessoas que decidiram não estudar, pessoas que decidiram não tentar nada novo. O fim do mundo, o fim daquele submundo, não chegou. Foi simplesmente uma piada. O fim deveria ter chegado. O fim da ignorância, o fim do conformismo, o fim da escória. Mas nada aconteceu. Passou o ano. Nada acabou. Nada mudou. Parece que o combustível do mundo é a estupidez e ignorância humana. E levando em consideração que ela nunca acabará, tudo me leva a crer que o esse mundo também não. O fim daquele mundo nunca chegaria enquanto as pessoas ficassem preocupadas com a inutilidade de estudar, de fazer acontecer, de protestar, de levantarem suas bundas do sofá e de fato fazerem algo para mudar suas vidas. Claro que acho difícil uma pessoa só mudar o mundo, mas foi com esse pensamento que ninguém fez nada para que ele mudasse. Mas houve quem mudasse alguma coisa. Mas a massa populacional, aquela que menos tinha acesso ao estudo, continuou sem fazer nada. Alias, faziam sim. Trocavam voto por cesta básica. Ou até, mulheres engravidando por um bolsa-família. Bolsa, cesta, essas coisas que enchem os olhos dos não-informados, que na minha opinião são informados sim, mas são muito egoístas. Bom, foi assim que as coisas continuaram na mesma. Depois de tanta tecnologia, depois de tanto avanço, a mente da maioria só retrocedia. E sempre culparam o governo, quando eles mesmos que elegiam. Então, a culpa é de quem? Bom, mas isso é outro história. Estamos aqui para falar do fim do mundo que nunca aconteceu. A verdade é que havia toda uma expectativa, toda uma esperança de que nos livraríamos disso aqui tudo e de que não sofreríamos as consequências de nossos atos. Houve uma grande decepção quando nada aconteceu. As vidas continuaram, as coisas não acabaram e nem mudaram. Foi uma depressão pós-nada. Foi ai que caiu a ficha do povo: o mundo não acabou, e ficou nas nossas mãos a responsabilidade de faze-lo seguir, mais uma vez. Claro, muito mais difícil ter essa responsabilidade nas mãos, do que simplesmente ver tudo perecer. Fracassamos em fazer aquele nosso mundinho acabar. Foi o fim de mais um carnaval, quando só sobra a sujeira. Na quarta de cinzas, não havia nenhuma cinza. Havia só quem limpasse a bagunça, e os que ficassem em casa de ressaca. E isso se repetiu ano após ano. E nada, simplesmente nada mudou. E todos viveram felizes para sempre. Ou pelo menos, sobreviveram bobos-felizes para sempre.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Do lado de fora da janela.

Aqui dentro, muita teoria. Lá fora, a natureza. Ao contrário daqui de dentro, nada é premeditado ou teorizado. Lá do outro lado da janela, o verde é simplesmente verde, e ninguém precisa estudar filósofos e antropólogos para perceber isso. Do lado de fora da janela não existe a burocracia de um teste final; um papel repleto de perguntas que irão definir o resto da sua vida. Por outro lado, o teste do lado de fora pode ser até mais difícil e pode até trazer consequências mais árduas. Aqui, do lado de dentro, é tudo tão preto no branco. Lá, o branco da nuvem, o azul, e o verde...Ah! O verde... Do lado de fora as cores me fazem querer. O dourado do sol nas pedras. Até mesmo o nublado-cinza me inspira mais. Aqui dentro tudo é repetido. Quase nada, ou nada, é descoberto. Aqui dentro sou um cérebro a ser ocupado. Do lado de fora da janela, sou parte do todo. Aqui dentro estudo Freud. Lá fora, sou objeto de estudo dele e de muitos outros. Aqui dentro, coincidentemente ou não, neste exato momento, alguém fechou a persiana da janela ao lado de mim. A professora apagou a luz. E agora abriram a persiana novamente. A professora não quis ficar no "breu" total. A luz está lá fora! É de fora para dentro. Mas é aqui dentro que nos preparam para todo o resto. Como algo laboratorial nos prepara para a natureza? Aqui dentro, grande e vidro. Lá fora, a liberdade e todo o infinito. Mas o que é a liberdade se estivermos presos dentro de nossa própria mente? E é aqui do lado de dentro que eu corto as correntes. Estou aqui para não precisar mais estar aqui. Liberto-me de minha prisão mental aos poucos, aqui dentro. E, para o lado de fora da janela, talvez um dia realmente estarei preparada. Enquanto não, aqui estou. Sentada, apreciando o lado de fora, escrevendo sobre o lado de fora, almejando o lado de fora, pelo lado de dentro.

domingo, 4 de novembro de 2012

Lorena e o espelho.

Aquela menina sempre se olhava muito no espelho. Ela gostava de se olhar. Nem sempre ela gostava do que via, mas ainda assim ela gostava de se olhar. Uma vez, em uma aula sobre fundamentos psicossociais da educação, ela ouviu sua professora dizer que nós somos um conjunto de três imagens: a imagem que as pessoas fazem de nós, a imagem que vemos no espelho, e nossa real imagem. A professora também mencionou que, pessoas com distúrbios alimentares, por exemplo, viam-se completamente diferente do que realmente eram, ao olharem no espelho. E que esses distúrbios aconteciam devido a preocupação que essas pessoas sentiam com a imagem que os outros faziam delas. A interferência da imagem que as pessoas fazem de nós acaba refletindo na imagem que vemos ao olharmos para o espelho, mas de fato, era a nossa real imagem que contava. Lorena olhava muito para o espelho. E cada dia olhava mais. Ela queria enxergar com clareza a sua imagem. Ela queria refletir exatamente do jeito que era, e não do jeito que as pessoas faziam ela se enxergar. Cada vez mais ela ficou obcecada por sua "imagem real". Todos os dias ela ficava horas em frente ao espelho de seu quarto. Depois, ela passava dias em frente aquele espelho. Ela ficava tentando visualizar como ela era de verdade. E percebeu que cada dia ela se via de forma diferente. Isso a confundiu. Ela não conseguia distinguir quem ela realmente era. Um dia, Lorena percebeu que a sua terceira imagem, a sua real imagem, jamais apareceria claramente. Ela começou a pensar, então, que nunca estaria livre das interferências de terceiros. Ela sempre veria aquela mistura de imagens refletida. Ela desistiu de se olhar. Aquela obsessão não acabou, porém. Apenas mudou. Piorou. Ao invés de passar dias em frente ao espelho. Ela retirou todos os espelhos de sua casa. Ela abaixava sua cabeça toda vez que via sua imagem refletida em qualquer lugar que fosse. Ela não queria mais se ver. Ela queria encontrar a sua real imagem sem  que nada se misturasse. Lorena teve algumas crises. Não era fácil ficar sem se ver no espelho. Para curar essas crises, ela resolveu criar uma imagem simbólica dela mesma. Ela fazia de seus atos, o reflexo de sua imagem. Ela queria ser vista pelo que ela era, e não pelo que ela parecia. Ela estudava muito, era boa com as pessoas, fazia de tudo para ser uma pessoa melhor a cada dia, e cada vez mais ela só fazia o que faria dela ser melhor vista aos olhos de outros. Com o tempo, Lorena sentiu-se aliviada. Ela estava gostando do seu novo estilo de vida. Decidiu que aquela coisa de não se olhar estava ficando um pouco estranha demais. Lorena comprou um espelho. Levou para casa embrulhado, e só realmente se olhou quando sentiu-se preparada. Ao olhar novamente no espelho, depois de muito tempo, Lorena sentiu um certo choque. Quando ela se olhou, ela não se reconheceu muito bem. Suas feições haviam mudado um pouco, haviam algumas marcas diferentes. Ela não sabia dizer o que havia acontecido. Outra crise atacou Lorena. Dessa vez, Lorena quebrou o espelho com tanta força que alguns estilhaços de vidro perfuraram sua face. Nada grave, mas Lorena levou um susto. A caminho do hospital, ela ficou calada. Não contou a ninguém o que havia acontecido, porque ela mesma não sabia explicar. Ao chegar no hospital, Lorena deparou-se com umas pessoas que estavam lá ajudando pacientes com doenças graves. Essas pessoas tinham uma coisa em comum. Todas elas tinham marcas severas de queimadura. Ela então perguntou ao médico o que havia acontecido com aquele grupo de pessoas. O médico lhe disse que, há algum tempo, havia acontecido um incêndio na loja perto do hospital, e que aquelas pessoas haviam sido levadas para a emergência de lá. Aquelas pessoas ficaram tanto tempo dentro daquele hospital, e sofreram um trauma tão grande, que muita gente se sensibilizou e visitou inúmeras vezes levando apoio e também algumas doações para que aquelas pessoas pudessem fazer uma reconstrução  das partes do corpo que foram arruinadas pelo fogo. Apesar do carinho e da doação, aquilo não foi o suficiente para que elas recuperassem sua imagem antiga. Depois de todo aquele sofrimento, e carinho ao mesmo tempo, aquelas pessoas viraram voluntárias naquele hospital. Estavam ali para dar apoio psicológico para alguns pacientes com casos graves, ou até mesmo em fase terminal. Foi então que Lorena sentiu vergonha dela mesma. Ela estava ali, tentando ser uma pessoa melhor apenas para que as outras pessoas a enxergassem de tal forma, e que assim ela pudesse se olhar tranquilamente no espelho, enquanto outras pessoas faziam o bem para as outras não pela aparência, mas pelo retorno de carinho e dedicação. Lorena entendeu, ao sair daquele hospital, que a nossa real imagem é na verdade a mistura de tudo. É a mistura do que nós realmente somos, com o que as pessoas veem em nós, com toda  a nossa história, nossos defeitos, nossas tragédias, nossas alegrias, e enfim, a "real imagem" é exatamente aquilo que somos, mas que muitas vezes não enxergamos, ou não damos atenção. Ela percebeu que não importava se ela se olhasse por dias, ou se não se olhasse nunca. Quem ela era não dependia disto. E muito menos, dependia de que ela fizesse qualquer coisa apenas na intenção de ser "bem vista". Sempre  haveria alguém que a visse de forma ruim, no final das contas. Mesmo que não dissessem. Sempre haveria um momento que ela também se veria de forma distorcida no espelho. Mas Lorena teve certeza, naquele dia, de que há coisas muito mais profundas e reveladoras do que a imagem que refletimos.