quinta-feira, 29 de março de 2012

A monarquia da mente.

Hoje visualizei na minha mente o que eu faria se soubesse a data do meu prazo de validade. O que você faria se soubesse que só tem mais 3 meses de vida? Foi fazendo-me esta mesma pergunta que cheguei à uma resposta quase que assustadora. Eu, no fim dos meus dias, escolheria passar todo o meu tempo escrevendo. Eu escreveria sobre o tudo e o nada que passa pela minha cabeça; sobre o tudo e o nada que é a vida; sobre o tudo e o nada que é a morte. Aquele tipo de loucura sensata que deve passar pela cabeça da pessoa que sabe que está prestes a morrer. Todas aquelas dúvidas que naquele momento já nem fazem mais sentido. Escreveria para todas as pessoas para as quais eu preciso dizer coisas que não diria se não soubesse que iria morrer logo. Escreveria no resto da parede da casa inteira. Mesmo que eu não tivesse sobre o que escrever, eu escreveria.

Foi então que entendi que nasci para morrer escrevendo. Porque quando estou trabalhando, estudando, bebendo com os amigos, dormindo, eu quero estar escrevendo. Eu tento guardar na minha memória todos os textos mentais que faço o tempo inteiro. E que seja obsessão; cada um com a sua. E que a minha se espalhe para os outros. E que o tudo que eu escrevi tenha agido dentro de pelo menos uma pessoa. E não que eu escreva para alguém, mas que esse meu egoísmo de escrever para ninguém não tenha sido em vão. E que nesse mundo onde as coisas estão tão depressa e superficiais, o meu alter ego lento e profundo perdure. E que por entre os signos de um texto meu, haja duas interpretações para cada pessoa que o ler. E que me estudem e me mal-interpretem. E que julguem. Que discutam. Não é egocentrismo. Eu só quero que as pessoas pensem, o tanto quanto eu penso. Penso o tempo inteiro. E sei que muita gente também. Dentre tantos milhões de pensamentos diários, pelo menos um vai ser irmão gêmeo. E nesse similaridade é que alguém vai sentir-se menos sozinho ao ler-me. E que nas divergências desses pensamentos gêmeos, exista a briga entre esses irmãos de raça, de raça humana. E que dessa briga nasça uma ideia nova. E que um dia, após tanta leitura e escrita, o pensamento seja o Rei de tudo. A monarquia da mente. Aquele grande dia que seremos pagos para ficarmos parados ao invés de pagos para o movimento. Porque o movimento está em círculos, e a sensação é que estamos indo a lugar algum. Então que paremos. Paremos e pensemos. Pensemos no não-óbvio. Os inventores nunca pensam no óbvio. Eles pensam no que pouquíssimas pessoas já haviam pensado. E foi depois de tanto pensar e escrever e tentar escrever mais do que penso que entendi que nasci para morrer pensando e escrevendo e tentando escrever mais do que penso.

terça-feira, 27 de março de 2012

Rapidinha do Garfield.

A pressa que temos em viver
Faz com que a gente viva sem saber
Se temos o que realmente queremos ter
Ou se fazemos tudo só para quem quiser ver.

quinta-feira, 22 de março de 2012

It tasted like freedom.

Aline Fernandes Thosi – A memorable experience I have had.
Trabalho Acadêmico para a Faculdade CCAA. Narrative essay.


There I was. Alone on an airplane to the U.S.A. The air-conditioning was very cold, and it was cozy like that. It did not feel like the boiling hot weather I used to hate. All the Brazilian flight attendents were speaking English already, and I felt like I was really distant from home, even though I was still in my home country lands. It felt like I was conquering a new world. An American girl sat right next to me, and we chatted for a while. At this point the air-conditioning was making me cough a lot. She offered me a minty candy, and I did not deny. She was beautiful and friendly. That was my first impression on American people. Beautiful blond people with a cute smile and a friendly tone of voice, who care about others.

After a while both of us fell asleep. The temperature and the blanket were an invitation to a nap. My nap lasted 8 whole hours. When I woke up, the brightness of the sun through the window pane was blinding. It really hurted my sleepy eyes. When I finally could see something, I looked around the airplane and that cute American girl was not by my side. I thought she’d probably have gone to the lady’s room. She would be a nice first vision after waking up. So I looked to my right, and the brightness was not so bliding anylonger. My eyes were getting used to the light, at this point. I could only see an infinity of blue after my eyes.

I felt the girl next to me had come back when she sat down, and she said we were landing. I probably did not hear the pilot’s announcement because I was asleep. Most of people closed their window shade in order not to see the groung coming closer. I wanted to see that. I had slept the whole trip, I did not want to waste any other minute. So I looked through the window, and then I looked down. I saw Washignto D.C under my feet. And I could see it all. I saw the tall buildings, and the busy streets, and the rivers, and me. I saw myself down there. I saw freedom, I saw challenge, I saw myself growing up.

That was the beginning of new Era to me. I was there, in a foreing country, all by myself, discovering a new side of me. As I stared at the capital of the United States, I felt like I was staring at my own future, my possibilities, my responsibilities. That was, by far, the most memorable experience I have ever had. Being on my own, far away, with lots of possibilities after me.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Dicas para escrever (?)

Não é a primeira vez que alguém me pede dica de como escrever. Sinto-me honrada em ser procurada para esse tipo de ajuda. Mas o fato é que não existe muito mistério. E você deve saber o que te atrapalha a escrever, antes de começar.

Eliminar o que te impede de escrever é sempre um bom negócio. Por exemplo, se o seu problema é com a Lingua Portuguesa ou com organização textual, comece estudando um pouco mais. Porém eu, na posição de criadora da comunicação entre mim e o meu leitor, não acredito que erros gramaticais ou desorganização textual impeça o estabelecimento da comunicação entre mais de uma pessoa. Obviamente, a beleza de um texto coerente e coeso não deve ser subestimada. O que acontece é que um texto coerente e coeso nem sempre é um texto de conteúdo cativante.

Se o seu grande problema é não saber sobre o que escrever, a dica é: veja possibilidade em tudo a sua volta. Desde a pia cheia de louça, até o barulho do vento de madrugada na sua janela. Há mil coisas sobre as quais pessoas já falaram, e milhões de coisas sobre as quais ninguém ainda disse, acredite. Contanto que você tenha uma mensagem a passar, não importa o tópico. Escreva.

Se o seu problema é não conseguir sentar e escrever, não sente e escreva. Ande de um lado para o outro, observe o seu ambiente, fume um cigarro (não faça isso), beba alguma coisa, produza o texto em sua cabeça primeiro. Quando você não aguentar mais procrastinar, sente e escreva de uma vez.

Caso o problema seja não conseguir colocar os pensamentos em ordem, melhor ainda. Deixe a natureza de sua mente agir conforme ela desejar. Não podemos controlar arte. Quando você sentir-se satisfeito com o tamanho/conteúdo do seu texto, volte e edite, organize. Aproveite que inventaram o word e o backspace.

Se você tem medo que as pessoas não gostem, ou discordem, escreva só para você. Escreva às vezes para os outros, mas sempre escreva para você. Mas não fique com medo de ousar, não pense tanto no julgamento das pessoas. Após um tempo você vai perceber que você conseguiu organizar em um texto os pensamentos mais confusos das pessoas.

Mas não importa qual o seu problema, não importa o que te prende. O primeiro impulso você já tem: a vontade de escrever. Agora simplesmente escreva. Não superestime textos rebuscados de autores famosos. Eles treinaram muito para chegar até ali. E não vai ser comparando-se aos outros que você vai chagar aonde quer. Até porque sempre existirá alguém melhor do que nós. Não importa o quão bom nós sejamos. Então a melhor dica que eu poderia dar é: escreva. De qualquer jeito, do seu jeito, sobre qualquer coisa, sobre coisa alguma, mas escreva.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Quem são todos vocês?

Existem alguns conceitos que demoram a entrar na cabeça, às vezes não entram, porque não queremos aceitar. Seja por teimosia, ignorância (geralmente confundida com orgulho) ou desatenção. Não sei exatamente qual foi o meu caso (no melhor dos casos foi desatenção) até porque quando o tal conceito desceu foi em um teco só e já estava aceito, implantado no meu cérebro, como se eu já soubesse dele desde que nasci.
Acho que todo mundo já indagou a si mesmo desde “como as pessoas me veem?” (ou qualquer coisa nessa linha), até “quem eu sou”. Há quem ache essas frases desnecessárias ou muito profundas, respectivamente. Não sabem que há muito fio pra desenrolar nessas indagações. O que seria esse “eu mesmo”? Esse eu mesmo é meramente, pra mim, uma forma “bonitinha” de expor estampado em um único quadro várias imagens do seu “eu”. Você (eu estou nessa) é vários, em várias camadas, cores e erros (muitos, muitos erros).

Em todos nós habitam diferentes seres. Alguns aceitáveis, outros repugnantes. Somos o mundo todo, dentro de um corpo só. A cada situação nos portamos de uma forma diferente e peculiar; e nem todas as situações conseguem engolir, sem vomitar, quem somos – nós, e todos os outros dentro de mim. Eu, e meus heterônimos. Meus alter-egos.



Aí entra o conceito que demorei pra perceber que existia e tinha até nome: alteridade. Não se culpe por possivelmente não conhecer a palavra, ela é um conceito antropológico meio deixado de lado de uma forma geral. Gramaticalmente, seria o antônimo de “identidade”. Alter em latim, significa outro, na mesma linha da palavra citada lá em cima: “alter-ego”. Ele diz, basicamente, que você é um outro alguém dependendo do ponto de vista de quem te vê e julga. Ou seja, você é um monte de alter-egos seus.
Esse conceito é tão confuso e ambíguo quanto acreditar em reptilianos, aqueles homens lagartos que aparentemente dominam a terra, naquele clima de Matrix, Illuminati e coisas do gênero. Mas, bem, voltando a realidade (porque, né), alteridade é aquele tipo de coisa que, se você pensar muito sobre, vai fazer seu cérebro latejar e implorar para que você pare com essa porcaria. Porque, partindo desse princípio aí, podem existir milhões de você dentro de um só – a única coisa imutável, no caso, seria o seu corpo físico. Em um cenário simplificado, é aquele caso de que as pessoas mudam quando estão em uma roda de amigos, ou quando estão perto da paixonite, por exemplo. Não é então que elas mudem, elas só trocam a chavinha no cérebro, pelo menos de acordo com o conceito de alteridade. Então quando alguém te chamar de “duas-caras”, agradeça, porque só duas é bom perto do que é dito. Em tese, o que muda de pessoa pra pessoa é o número de alter-egos possíveis e existentes.



Ainda dentro disso existe algo interessante, que é a possibilidade de, a partir do momento em que você finalmente saca o conceito de alteridade, no momento em que é “adquirida”, você conseguir magicamente se colocar no lugar do outro e julgar as situações de forma mais, digamos assim, “correta”. Ou seja, você não só pode (e vai) mudar seu comportamento, como também pode mudar o seu jeito de ver as coisas, desde que você saque a alteridade das pessoas. Antropólogos gostam dessas coisas.



Então, no final das contas, entra aquele ditado (já é considerado ditado? eu tenho ouvido tanto isso de tanta gente diferente) de que se você é um pouco de tudo, você é nada.
“Você é tanta gente, que acaba sendo um nada”. Li isso em um artigo por aí. E discordo colossalmente. No fundo, as poucas ou muitas personalidades que temos formam uma personalidade só, formam o “eu”. Porque, afinal, aquele quadro cheio de camadas, cores e muitos erros ainda é um quadro.

Se a existência desse “eu-individual” só é permita diante de interação social (blergh), então quem é você quando está sozinho?

E não, não somos falsos. Não nos escondemos atrás de máscaras. Somos apenas mutáveis, flexíveis, adaptáveis. E o que fazer quando todos os vocês dentro da sua própria cabeça resolvem entrar em conflito? Quem nunca sentiu-se perdido, sem saber quem realmente era? Quem nunca teve “crise de identidade”? Quero ser responsável, quero ser impulsivo. Quero ser diferente, não quero ser excluído. Quero ser inteligente, quero ser descolado. Queremos o mundo todo ao mesmo tempo, pois não somos um só. Todas as personalidades são tão encantadoras que apanhamos algumas delas para nós. E nós somos megalomaníacos. E então, o que ser? Quem ser? Quando ser? Por que escolher? Fico com todas, então. Ou você acha que alguém é tão real que age o tempo todo como se ninguém estivesse vendo?

Por Aline Thosi & Fabio Key

Encontre esse texto em: http://worldwithoutcoffee.wordpress.com/2012/03/19/untitledatfk/

quinta-feira, 15 de março de 2012

O assalto.

Claro, não poderia deixar esse episódio passar em branco. Saí de casa mais cedo do que de costume. Enquanto estava há uns 10 passos do meu destino, fui abordada. Como sempre ando muito distraída, só reparei a moto quando ela estava na minha frente. O assaltante mostra sua arma e me instrui para que eu apenas entregue minha bolsa, e não faça mais nada. Depois de eu ter entregue os meus pertences, ele me diz para ir embora. "Vai embora você, filho da puta" foi o que eu pensei no momento. Sempre que sou pega de surpresa, em qualquer situação, meu coração acelera e a sensação de adrenalina chega a ser engraçada. Acho que com todo mundo deve ser assim. Entreguei minha bolsa sem muito rancor, pois não havia nada de muito importante nela. Mesmo assim, a sensação de ódio cresce quando paro para pensar que um ser humano idiota qualquer leva o que você conquistou com o seu trabalho, assim... tão facilmente. Ele te mostra uma arma, você teme pela sua vida, e entrega. Eu gostaria de não temer pela minha vida para ter as reações mais adversas em situações assim. Fiquei imaginando várias coisas que poderia ter feito ou dito nessa hora, se não temesse pela minha vida. Alias, não só pela minha vida, pela minha integridade física também, pois não precisa de uma arma para assaltar uma menina de metro e meio. Acho que ele estava com mais medo do que eu. Ele não mostraria a arma para uma menininha indefesa se não estivesse com medo da reação dela. Acabo de me lembrar que há alguns dias eu escrevi uma short story sobre um assalto. Mas a minha história real não tem muito a ver com a que eu escrevi. Na minha short story o assaltante tem uma realidade bem pobre, e ninguém chega perto dele. Na minha história real ele tem uma moto e se veste bem, e deve ser "o cara" por onde ele mora. Bom, talvez ele tenha sido um sem-nada também algum dia, começou a assaltar e então conseguiu uma moto e se vestir bem, vai saber... Fato é que cada um ganha a vida como pode, ou como acha mais fácil. Eu trabalho. Ele rouba. Talvez ele seja feliz assim, ou talvez essa seja a única saída que ele encontrou...ou a saída mais fácil de todas as outras que existiram para ele. Mas o fato é que ele não se importou com a minha vida, e nem eu me importo com a dele. Ele levou coisas que pertenciam a mim, e por isso, só por isso, quero que ele morra com um cabo de vassoura enfiado no cu. Não pelos bens materiais. Consigo tudo de novo, disso eu não duvido. Mas pelo simples fato de que eu não admito uma pessoa se metendo assim na minha vida, e tocando na minha vida sem permissão. Diferente da minha short story, eu não tinha um livro na bolsa. E diferente do meu personagem, não acredito que um livro mudaria a vida do assaltante. Eu não mudaria a vida dele, ele não mudou a minha. Somos apenas dois estranhos que se cruzaram numa situação esquisita causada pelo mundo capitalista. Eu fui apenas a pessoa certa na hora errada. E ele, só mais um dos filhos da puta que passam pela minha vida. Ele só tinha uma profissão diferente dos demais.

terça-feira, 13 de março de 2012

Intersections.

We may go round and round, but we`ll meet again at some point.
We will meet each other at our next life road intesection.
But there will be a day our roads will come to an end.
Before that happens I want to tell I love you so.
If our ends are not the same, I will miss you.
I wanted you to know how much I miss you.
We may never ride the same roads again.
But I will always be thankful for you.
That will be my last kiss goodbye.
Our roads will end eventually.
No more intersections to us.
We must get ready soon.
I do not want to.
Say: goodbye.
Goodbye.

domingo, 11 de março de 2012

O artista.

Ser artista não é fácil. Aliás, poucas coisas na vida são. Por exemplo, eu começar um texto dizendo que ser artista não é fácil faz entender que eu me considere uma artista, e isso pode soar arrogante. Bom, eu acho que eu sou mesmo arrogante. Mas digo isso, também, porque ser artista é enxergar o mundo de uma forma diferente dos demais. Até mesmo diferente dos demais artistas. Caso contrário você é só mais uma cópia, de uma cópia, de uma cópia. E enxergar o mundo de uma maneira única não é um sonho. É um pesadelo. Levando em conta que só você vê uma coisa, só você acredita nela; e ninguém mais, além de você, te compreende. E quando você quer espalhar a sua arte, você é um louco. Um preguiçoso. Um sem futuro. Infelizmente o artista fica preso à fama. Para ser aceito como artista, você precisa alcançar a fama. Artistas que não se preocupam, ou não querem a fama, raramente são reconhecidos. Até pela família. A não ser que a sua família já seja composta por algum outro artista, o que é raro, ela não vai compreender, dar atenção ou achar que isso vá lhe dar futuro algum dia. Alias, que futuro é esse que as pessoas esperam que nós alcancemos? Porque todo mundo quer a mesma coisa? Que condição é essa, de que se você viver em sociedade, você vai pensar, agir e querer igual? Onde fica o botão de desliga em robôs. Ser artista é entender que não se é entendido, na maioria das vezes. É deixar claro para si mesmo que dentre dez pessoas, com sorte, uma vai parar pela sua arte. Reconhecimento. É isso que eu acho que gostaria de ter. E por isso ficamos presos à fama, talvez. A arte deveria libertar, e não prender. Mas o que é a nossa vida sem o próximo? De que vale a arte se não for olhada, criticada, pensada? De que vale a arte senão fazer com que as outras pessoas pensem de uma maneira original? E o que é original hoje em dia? Ser artista é ter mais perguntas do que o normal. É sentir no próprio corpo a dor de saber que, se não houver reconhecimento no final das contas, a sua arte vai morrer dentro de você. Mas a beleza de ser artista, é que mesmo não havendo reconhecimento da fábrica de pessoas, alguém, em algum lugar, vai modificar-se pela sua arte. E mesmo que não haja fama, alguém vai te ter como ídolo por ter sido tocado pela sua arte, quando mais nada o tocava. E ser artista não é uma escolha, apesar de se aprimorar com a prática. Acho que poucas coisas na vida são realmente escolhas nossas. Nós é que pensamos que temos controle sobre a nossa própria vida. Nós não mandamos nem mesmo na nossa mente.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Um livro para os cegos contemporâneos.

Não era um dia como outro qualquer. Ao invés do calor daquele verão carioca, um clima fresco ocupou aquela manhã atípica. Ela acordou antes do despertador tocar. Tomou chocolate quente ao invés do diário suco de cranberry, pois o clima permitiu. Não checou suas redes sociais, como de costume. Preferiu ouvir um pouco de música. Com calma, pôde tomar seu chocolate enquanto ouvia música, e olhava pela janela. Ela achava janelas incríveis, a televisão do mundo. Decidiu então sair antes do horário, e assim, chegar mais cedo à faculdade para buscar alguns livros na biblioteca.

Após anos sem conseguir concentrar-se para ler um livro, ela finalmente achou um que lhe trouxe de volta o gosto pela leitura. E conseguiu ler até a última palavra, no dia anterior. O livro lhe ensinou coisas que o dia-a-dia contemporâneo não permitia que ela enxergasse. Coisas como o fato de que estudar e trabalhar enriquece a alma, e não só o bolso. E que pegar ônibus diariamente pode ser cansativo, mas é também sinônimo de liberdade; o direito que temos de ir e vir. E que ter pessoas ao nosso redor, por mais difíceis que as pessoas sejam, é não estar sozinho no mundo. O livro não disse à ela que fosse conformista. Mas disse, sim, que por mais difíceis que as coisas sejam, tudo é passageiro.

Apesar de ter saído sem pressa de casa, ela esqueceu seu Ipod. Ela pôde, então, ouvir os sons típicos de uma manhã útil. Típicos, mas que ela desconhecia. Ao entrar no ônibus, não abaixou a cabeça como sempre fazia, mas deu bom dia ao motorista e ao trocador. Recebeu sorrisos e gostou de não estar mal-humorada por estar atrasada. O ônibus estava mais vazio, e ela sentou-se no lugar mais alto, seu lugar preferido. Ao olhar pela janela, reparou o jeito como as pessoas se portavam. Todos com pressa, rudes e com o rosto amassado. Ela sentiu-se feliz por não ser igual a todo mundo, naquela manhã. O trânsito estava fluindo. Tudo pareceu muito leve.

Ela sempre sentia-se desconfortável em estar de bom-humor, pois achava irritante pessoas que sorriam para tudo. Nesse dia, ela simplesmente não podia evitar. Enquanto olhava pela janela, percebeu que alguém havia sentado ao seu lado. O rapaz, pediu licença. Todos faziam isso, mas ela nunca reparou, pois sempre estava ouvindo música. Ela não olhou muito bem, para não parecer invasiva.

- Passa o celular e a carteira.

- Como é?

- Ficou surda? Passa o celular e a carteira, agora!

Ela teve uma reação que nunca esperou ter. Ele recebeu uma reação que nunca esperou receber. Ela colocou a mochila no colo do rapaz. O corpo dos dois adormeceu.

- Pode olhar, e leve o que quiser. – Disse, com a voz suave.

O rapaz ficou paralisado. Depois de alguns segundos olhando para os olhos dela, abriu sua mochila com movimentos bruscos. Ele perdeu alguns segundos encarando a menina, pois poucas pessoas permitiam que ele o fizesse. Abriu a mochila e achou somente material escolar. Abriu o outro compartimento, não achou nada que lhe interessasse.

- Eu estou armado, me passa o celular que tá no seu bolso, agora, e rápido!

O rapaz jogou a mochila no colo dela, de uma forma brusca, e levantou a blusa para mostrar que portava uma arma de fogo. Ela tirou o celular do bolso, num movimento lento e entregou para o rapaz, que arrancou o celular de sua mão.
Ao levantar-se do banco, o rapaz sentiu um toque em seu braço. Há muito tempo que ninguém o tocava. Ele estava sempre sujo, mal vestido. Morar na rua não o permitia manter a aparência cuidada. Não que ele se importasse com isso. Morar na rua também fazia com que as suas feições fossem rudes, e assim, ninguém nunca chegava perto dele. Ele olhou rápido de volta, e viu a mão clara daquela menina esquisita em seu braço. Receioso que alguém visse o que estava acontecendo, ele sentou-se novamente no banco. Sem ter tempo para pensar, a unica coisa que ele pensou foi que aquela menina não era normal e que lhe causaria problemas. Aquela arma de fogo não estava carregada, e ele nunca havia usado de fato. Suas pernas tremeram. Ele nunca precisou usar aquela arma, pois ninguém nunca havia tido uma reação diferente. As pessoas se assustam, entregam seus pertences, e se afastam dele. As pessoas sempre se afastavam dele. Mas mesmo descarregada, ele pensou que ainda podia usá-la para agredir a menina, caso necessário. Ele só queria ir embora dalí.

Ela, então, entregou o livro que tanto lhe fez bem, na noite anterior.

- Você pode ler a primeira página?

- O que é isso?

Ele tentou ser duro, mas ninguém, jamais, havia olhado para ele tão diretamente. O sorriso dela trouxe calma a ele, finalmente. A calmaria instalou-se no lugar de todo seu nervosismo. O rapaz sentiu o suor escorrer pelo canto do rosto.

- Um livro, oras. Lê. – Disse ela com um riso bobo.

- Não quero ler o que a bíblia tem a me dizer.

- Isso tem cara de bíblia? – Disse, com um tom debochado.

Ele então abriu o livro, e lá estava escrito: “Que para você, valha tanto quanto para mim”. Fechou o livro novamente, leu o título.

- Se você vai levar algo que me pertence, que seja algo que realmente tenha valor.

Ao acabar de ler o livro, na noite anterior, ela disse para si mesma que daria aquele livro para uma pessoa que realmente precisasse dele, assim como ela precisou. Foi com aquele livro que ela soube que os bens materiais são supérfulos, e que as pessoas que nos cercam são a maior riqueza que temos, independente de quem sejam essas pessoas. Se o rapaz levasse o celular dela, jamais poderia levar com ele a paz que ela sentiu naquele momento. Ela aprendeu também, que uma pessoa ruim pode ser ruim porque simplesmente é, ou porque a vida não lhe deu outra escolha. Ou porque ninguém mostrou outro caminho. Mas ela não acreditou que fosse o caso dele. Uma pessoa ruim já teria atirado ou agredido muito antes. Ela percebeu, que a vida nos traz situações difíceis, mas que sempre há alguém em uma situação pior, e que nem por isso, esse alguém desiste. E que algumas pessoas imploram por uma oportunidade, e que qualquer pessoa pode fazer o bem e dar uma oportunidade a quem tanto precisa. E, também, que devemos abraçar a nossa liberdade, e fazer coisas boas com ela. Talvez não sejamos livres para sempre. Talvez sejamos livres, mas nossa mente seja aprisionada. Ela sabia que aquele livro carregava um valor que o nosso país capitalista esquecera. Ela precisava que mais pessoas soubessem disso.

Por um segundo ele quis atirar o livro na cara daquela louca, mas ao contrário disso, ele olhou mais um pouco para ela. Ficou parado por minutos ao lado dela. Ele queria entender o por quê daquilo estar acontecendo com ele. Ele queria, também, passar mais tempo ao lado da única pessoa que teve a coragem de encostá-lo em anos. Ao sair daquele estado inértico, ele levantou-se e foi embora.

A sua vida não parou. Ele não devolveu o celular à ela. Ele não deixou de ser quem era. A vida dele não mudou. Ele não tinha outra escolha, apesar de sempre ouvir que só é marginal quem quer. Ele também nunca leu o livro. A vida não é um conto de fadas. Ele mal conseguiu ler o que a menina havia escrito, ou o título. Mas foi por causa daquele livro que ele sentiu-se vivo, visto. Aquele livro era a prova de que ele não era invisível.

sábado, 3 de março de 2012

Saturday Morning.

When waking up early sucks, drink a tasty coffee.
When working is hard, have fun.
When the silence is too noisy, listen to some good music.
When your life becomes uninteresting, read a book.
When you are restless, write some lines.
When you are sick of everything, drink some vodka.
When you feel tired, sleep ten more minutes.
When you are too shy, get on the table of a bar.
When you are too talkative, stop and listen.
When you are unhappy, stop being a sissy and go to work!